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Sem fronteiras para aprender

A história de estrangeiros que escolheram as universidades brasileiras como casa

O começo de algo novo

O fim da vida escolar e o ingresso na faculdade é, para muitos, parte significativa da transição para a vida adulta. Sair de casa para conquistar seu espaço no mundo traz desafios aos jovens que deixam para trás o ambiente familiar e vão ocupar os espaços das universidades. Mas e aqueles alunos que vieram de fora do país e veem no Brasil uma oportunidade de crescer profissionalmente, como eles lidam com essa fase?

Segundo o Censo da Educação Superior 2016, de todos os estudantes estrangeiros que estão nas universidades brasileiras, 45% vêm do continente americano, 28% vêm da África (principalmente da Angola), 14% vêm da Europa, 11% da Ásia e apenas 2% da Oceania. Rebecca Kapia e Ana Claudia Garcia estão entre esses estudantes que, além de caminharem rumo à vida adulta, conquistaram vagas em universidades fora dos seus países de origem

A educação que ultrapassa as portas de casa e transcende os limites das fronteiras entre países é capaz de construir não só oportunidades, mas histórias grandiosas. Fora da zona de conforto fica a linha tênue entre o conhecido e o completamente novo, e as expectativas podem ser correspondidas, ou não, quando a viagem torna-se, de fato, o cotidiano.

Foto: Laryssa Baião

Rebecca Kapia: ir além das fronteiras também é herança de família

Com um olhar simpático e a fala espontânea, Rebecca Kapia, de 24 anos, contou sua história com um leve sotaque francês. A aluna do curso de Nutrição da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) veio da República Democrática do Congo, país da África Central de colonização belga, e já aprendeu muito com a experiência de estudar fora.

Há cinco anos no Brasil, Rebecca caminha para o décimo semestre da graduação e pretende se formar em janeiro do ano que vem. Assim que terminou o ensino médio no seu país, começou a cursar medicina lá, até que surgiu a oportunidade de se candidatar ao Programa de Estudantes Convênio de Graduação (PEC-G), que oferece a estudantes de países em desenvolvimento vagas para cursar o ensino superior em universidades brasileiras.

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A chegada

Desde que colocou os pés em solo brasileiro, no dia 12 de fevereiro de 2013, a congolesa teve que encarar desafios. Rebecca veio para fazer seis meses de um curso de português oferecido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  Mas ainda no aeroporto, em São Paulo, perdeu suas malas. Sem falar nem entender a língua do país em que acabara de chegar, desenhou, fez sinais, mímicas e, por fim, encontrou alguém que falasse inglês e que pudesse ajudá-la. Mas, ainda assim, só depois de alguns meses iria encontrar seus pertences.

 

Rebecca veio junto com um grupo de estudantes de fora que estava prestes a se espalhar em diversas regiões do Brasil, mas como o processo das malas demorou, ficou desamparada. Pediu informação para chegar à rodoviária e em seguida pegou o ônibus para o Rio. O mesmo Rio de Janeiro de Copacabana, da beleza e exuberância naturais. Mas não para Rebecca, que não foi recebida com a paisagem do cartão postal da cidade. “Quando eu cheguei no Rio, a imagem que eu vi na entrada, aquelas casas de Nova Iguaçu, era uma imagem totalmente diferente. Eu pensava que todo lugar do Rio era igual Copacabana. Tudo bonitinho. Porque realmente na mídia é o que a gente vê. Cara, eu tava tão decepcionada.”, confessou.

 

Sem ter para onde ir, explicou a um taxista que precisava de um lugar para morar por alguns dias, antes de encontrar seus amigos congoleses que já estavam em terras brasileiras. Ele a levou a um hotel em Copacabana, mas a conta saiu mais cara que o esperado para a estudante. “Eu fui, parei lá no hotel, fiz todas as coisas, me cadastrei e entrei. Fiquei hospedada uns três dias, mas a conta foi muito alta. Foi um dos primeiros piores momentos no Brasil.”, declara.

 

Depois disso, Rebecca fez o curso de seis meses na UFRJ e foi aprovada no exame de língua portuguesa, com isso, estava pronta para começar a graduação. Mas ingressar no ambiente acadêmico estava além das avaliações formais, a máxima da receptividade dos brasileiros não foi regra para a congolesa. A estudante teve dificuldade para se integrar, em uma sala de aula de estudantes brancos, disse sentir o olhar diferente: “Muita gente te olha assim ‘Ah, você veio da África, você é pobre’, te fazem umas perguntas bem constrangedoras. Foi muito difícil! Mas aí com o tempo eu fui lidando com isso, eu não me importo mais.”

 

Alguns dos amigos de Rebecca que também vieram para o Brasil foram estudar em outras cidades e tiveram facilidade no processo de adaptação com as pessoas. Ao ver a facilidade dos amigos em se integrar, a estudante se decepcionava. “Teve um momento que eu fiquei tão triste. Eu podia ter estudado em uma outra cidade. Minhas amigas que foram para Belém e outras cidades falaram que os amigos da turma estavam bem receptivos. Eu via as fotos, todo mundo com a turma e eu ficava sozinha no pátio, esperando a outra aula começar. Foi assim durante muito tempo”, desabafa.

 

A relação com os professores também não foi tão simples, muitas vezes a estudante se via obrigada a conversar com os professores para explicar que  que precisava que falassem mais devagar. “Tinha alguns que mudavam ou que se importavam de perguntar se eu estava entendendo a matéria. Outros não. Até hoje, tem muitos professores que nem sabem que tem um aluno africano aqui”, conta.

 

Em relação à língua, Rebecca confessa ter achado o português um idioma bonito, mas muito difícil de aprender. Muitas regras de gramática, tempos verbais e expressões diferentes exigiram dedicação. Algumas dificuldades, como as apresentações de seminários, estavam presentes no cotidiano acadêmico, por isso, a estudante combinava com os colegas de classe de falar poucas palavras, até se adaptar.

Parte 2: O cotidiano

Rebecca mora em Cascadura, bairro da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Morava sozinha até a chegada do primo que veio recentemente para estudar na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela tem que se deslocar todos os dias até a Urca, de ônibus, onde fica o campus em que estuda.

Geralmente, a estudante tem aulas de segunda à sexta pela manhã, mas também estuda no período da noite as quintas e sextas-feira. Acorda cedo quando a aula é de manhã e enfrenta algumas horas de deslocamento. Quando o intervalo entre as aulas é muito longo, aproveita o tempo vago para estudar na biblioteca do prédio de Enfermagem, onde passa a maior parte do seu tempo.

Rebecca na biblioteca, onde passa muitas horas no intervalo entre as aulas

A aluna de nutrição, frequenta ainda uma igreja cristã, onde fez amigos e conheceu uma senhora a quem chama de madrinha, lá criou laços e foi acolhida. Além disso, a estudante conta que neste mesmo ambiente foi aperfeiçoando seu conhecimento da língua falada no Brasil. “Eu levava sempre um caderno, porque a minha igreja projeta a pregação numa tela. Aí quando eu via uma palavra nova, eu anotava no caderno, depois ia procurar o que significava”, conta.

 

A cultura brasileira surpreendeu a estudante congolesa algumas vezes, hábitos como beijar em público, por exemplo, trouxeram certo estranhamento para quem veio de um país de cultura diferente. Outra questão que chamou atenção de Rebecca foi a relação do Brasil com a homossexualidade. “Essa questão por exemplo de homossexual, no meu país não tem isso. Mas eu não me oponho ao desejo da pessoa. Eu não vou falar ‘Porque no meu país não tem isso eu não vou ter amigos assim’. A sua vida é a sua, a minha cultura é a minha.”, pontua.

 

A estudante confessa ter mudado muitos dos seus pensamentos e provou ter conquistado um grande crescimento pessoal com a experiência de vir para o Brasil. Para ela, ultrapassar as fronteiras do seu país para buscar conhecimento é quase uma tradição de família e, apesar de declarar que os brasileiros são mais apegados, diz ter muito carinho pelos familiares.

O cotidiano

Rebecca mora em Cascadura, bairro da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Morava sozinha até a chegada do primo que veio recentemente para estudar na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela tem que se deslocar todos os dias até a Urca, de ônibus, onde fica o campus em que estuda.

Geralmente, a estudante tem aulas de segunda à sexta pela manhã, mas também estuda no período da noite as quintas e sextas-feira. Acorda cedo quando a aula é de manhã e enfrenta algumas horas de deslocamento. Quando o intervalo entre as aulas é muito longo, aproveita o tempo vago para estudar na biblioteca do prédio de Enfermagem, onde passa a maior parte do seu tempo.

Rebecca na biblioteca, onde passa muitas horas no intervalo entre as aulas

A aluna de nutrição, frequenta ainda uma igreja cristã, onde fez amigos e conheceu uma senhora a quem chama de madrinha, lá criou laços e foi acolhida. Além disso, a estudante conta que neste mesmo ambiente foi aperfeiçoando seu conhecimento da língua falada no Brasil. “Eu levava sempre um caderno, porque a minha igreja projeta a pregação numa tela. Aí quando eu via uma palavra nova, eu anotava no caderno, depois ia procurar o que significava”, conta.

 

A cultura brasileira surpreendeu a estudante congolesa algumas vezes, hábitos como beijar em público, por exemplo, trouxeram certo estranhamento para quem veio de um país de cultura diferente. Outra questão que chamou atenção de Rebecca foi a relação do Brasil com a homossexualidade. “Essa questão por exemplo de homossexual, no meu país não tem isso. Mas eu não me oponho ao desejo da pessoa. Eu não vou falar ‘Porque no meu país não tem isso eu não vou ter amigos assim’. A sua vida é a sua, a minha cultura é a minha.”, pontua.

 

A estudante confessa ter mudado muitos dos seus pensamentos e provou ter conquistado um grande crescimento pessoal com a experiência de vir para o Brasil. Para ela, ultrapassar as fronteiras do seu país para buscar conhecimento é quase uma tradição de família e, apesar de declarar que os brasileiros são mais apegados, diz ter muito carinho pelos familiares.

O futuro

A menos de um ano da formatura, Rebecca faz planos de cursar mestrado em outro país. Para ela, o Brasil não correspondeu a todas as suas expectativas. “Eu já visitei outras cidades, mas com o Rio eu fiquei muito decepcionada. Eu já fui assaltada tantas vezes que pra mim já deu. Como eu já tô terminando, eu tava pensando em fazer mestrado, mas eu prefiro fazer em outro país”, desabafa.

 

Alguns dos seus professores, encorajaram a menina ao falar que ela foi muito guerreira por ter saído do seu país e deixado a família. “Para mim não foi assim tão difícil, porque meus pais já nos criaram assim. Quando você termina a escola, procura um meio pra você sair. Aqui vocês são muito filhos da mamãe, mamãe fica muito ‘Ah, vou sentir saudade!’. Mas eles esquecem que esse processo é pra você poder crescer, se virar sozinho, num lugar onde você não tem família.” reforça ela, enfatizando que essa etapa faz parte do seu crescimento pessoal.

Rebecca acredita ainda que esse é o resultado da educação que a família lhe deu e quer que seus filhos tenham oportunidades como a dela. “Tem um momento da vida que os seus pais já fizeram o dever deles, te deram educação, te criaram. É o pensamento que eu tenho. Quando eu tiver meus filhos, eles vão seguir o mesmo caminho. Porque é assim que você conhece os mundos, até que você perde um pouco de complexo.”, afirma.

O futuro

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O Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), programa que Rebecca participa, existe no Brasil há mais de 50 anos e é uma iniciativa do Ministério da Educação em parceria com o Ministério das Relações Exteriores. Os alunos participantes são nativos de países em desenvolvimento que possuem acordos com o Brasil, tem entre 18 e 23 anos e precisam provar que tem fluência em língua portuguesa ou passar por um curso de português quando chegam aqui.

Cerca de 109 instituições públicas e privadas espalhadas pelo país recebem os alunos que firmam o compromisso de voltar para suas nações de origem, após a conclusão do curso, para contribuir com o que foi aprendido. Só em 2017, ingressaram no programa 491 alunos de países da África, Ásia e América Latina. Para se manter por aqui, podem eventualmente receber auxílio-financeiro, em caso de necessidade emergencial e de mérito acadêmico, mas são independentes e precisam providenciar sua moradia e alimentação.

Ana Claudia Garcia: estudar fora é sobre ganhar confiança

Da América Latina, o país que mais enviou alunos para participar do programa de intercâmbio brasileiro é o da estudante de enfermagem Ana Claudia Garcia, o Paraguai. De primeira, Ana não demonstra ser estrangeira, com sotaque típico carioca e uma fala baixa, a estudante contou sobre sua decisão de deixar o seu país em busca de melhores oportunidades.

O fato de já possuir um tio, no Brasil, que anos atrás veio fazer faculdade de engenharia em Petrópolis, fez parecer a possibilidade de estudar fora parecer cada vez mais viável para a jovem. Ela sabia apenas que queria fazer algum curso na área da saúde, então, depois de ter feito apenas três meses de cursinho preparatório para prestar vestibular para as universidades de seu país e vendo não ter condições de pagar o ano inteiro, teve a ideia de vir para o Brasil.

Começou a estudar português e tentou fazer a prova, mas o resultado definitivo demorou mais de seis meses até sair: estava aprovada e faria Enfermagem,também na UNIRIO. Nesse meio tempo, conseguiu um emprego como secretária em um consultório para arcar com os custos de seus documentos.

Adaptação ao Brasil

Ela se lembra bem de seus primeiros dias no novo país. Como era muito tímida, demorou certo tempo até conseguir se acostumar com a cultura diferente e, principalmente, para se enturmar. O começo de conversa era sempre difícil, mas, com o tempo, as pessoas começaram a conversar com ela, Ana passou a falar mais, e hoje possui vários amigos.

Quanto à língua, Ana não teve grandes dificuldades, ela cresceu em uma cidade que faz divisa com Foz de Iguaçu, e o contato frequente com o tio e os primos, também era oportunidade para treinar português. Ela conta que o maior problema que enfrenta até hoje, é na parte escrita, e acrescenta que no começo foi pior, mas hoje com os estudos, percebe uma melhora.

Ana diz, também, achar seu papel como estudante estrangeiro essencial, já que tem a oportunidade de conversar com as pessoas sobre sua experiência e sua história, podendo mudar a visão estereotipada que alguns têm sobre o Paraguai.

Cotidiano

Hoje em dia, Ana mora com os tios em um apartamento em Botafogo, apesar disso, eles pouco se veem, devido a diferença de horário entre as aulas da universidade da jovem e o turno de trabalho de seus tios. A estudante conta que a ajuda dos tios foi muito importante, mas conta que quando morou no mesmo apartamento com duas meninas do Paraguai, enquanto seus tios viajavam pelo mundo, aprendeu a lidar com as dificuldades e a ter mais responsabilidades desde muito cedo.

"Eu estava manejando o dinheiro de outras pessoas, era bem mais difícil. Então tem que estudar, aprender a manejar seu tempo, aprender a manejar dinheiro. Aí eles (os tios) voltaram, mas um monte de coisas eu já aprendi nesse tempo.", disse Ana.

A paraguaia cursa atualmente o quinto período do curso de enfermagem. O curso é integral, e exige bastante dedicação e estudo, dentro e fora da universidade, mas, segundo ela, Quando surge algum problema em relação aos estudos, os colegas de sala sempre a ajudam.

Já que está estudando no Brasil pelo   

pelo programa PEC-G, uma das exigências feitas para continuar no país é a de não reprovar muitas vezes, então, quando o assunto é estudo, a pressão é grande, mas é algo que ela aprendeu a lidar a cada dia.

Graças a essa experiência de estudar fora, Ana ganhou bastante confiança. Antes, se preocupava bastante com o que as pessoas iriam dizer sobre ela e em como seria vista, mas com o passar do tempo aprendeu que suas opiniões também importam e que merecem ser ouvidas, o que diz ser um grande avanço.

Morar longe de casa nem sempre é fácil, quando a saudade aperta, a volta para casa não é tão simples assim. "Na minha família somos quatro, e meu pai tem que trabalhar pra mandar dinheiro, e tem a diferença monetária também, então as vezes a gente fica mais apertado. Não falta nada, mas é sempre justo. Quando a gente quer fazer alguma coisa como essa, tem que juntar dinheiro. Aí sempre quando tá perto das férias meu pai me fala se tá com dinheiro ou não pra eu voltar pra lá, mas acabou que nas últimas férias eu consegui ir. Depende da situação que a minha família tá vivendo pra decidir se vou pra lá ou não."

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Futuro

Em relação ao futuro, Ana espera poder ajudar os que mais precisam através de seu trabalho como enfermeira. Para ela, é bastante assustador ver a quantidade de moradores de rua na cidade do Rio, já que no Paraguai esse número é menor. Mas essa realidade é algo que inspira a pensar o seu papel em ajudar as pessoas.

A estudante pretende levar a cultura brasileira por onde for, e já se sente inserida nela, a espontaneidade, a individualidade e a diversidade de assuntos sobre os quais as pessoas discorrem umas com as outras são fatores que marcam muito o jeito brasileiro, que ela acha tão legal.

Este site é parte da avaliação da disciplina de Redação Jornalistica I do Curso de Jornalismo da UFRRJ. A reportagem e a produção do site pertencem aos alunos Ana Carla Longo, Laryssa Baião e Roberto Jr.

 

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